O mais esquecido de todos os estranhos é o nosso corpo. O nosso próprio corpo" (Walter Benjamim)
A anorexia não é uma mania, nem um comportamento: é uma doença
Etimologicamente, o termo anorexia deriva do grego “an”, deficiência ou ausência de, e “orexis”, apetite.A anorexia nervosa já era um transtorno conhecido em épocas antigas.Durante a Idade Média, as práticas de jejum foram compreendidas como estados de possessão demoníaca ou milagres divinos. Bell, em 1985, relata o comportamento anoréxico realizado por 260 santas italianas aparentemente em resposta à estrutura patriarcal a qual estavam submetidas, e conhecido como “anorexia sagrada”. Também na idade media se descreve a vida de algumas santas como Lidwina (Lydwine) de Shiedam, uma santa do século XIV que viveu na Holanda; ou a santa Wilgefortis, filha do rei de Portugal, que jejuou e rezou à Deus pedindo que ele tirasse a sua beleza, para desta forma afastar atenção dos homens. Esta santa foi adotada em alguns paises da Europa como santa patrona daquelas mulheres que desejavam ver-se livres da atenção masculina.A mais famosa anoréxica da história é Santa Caterina de Siena (1347), que aos 7 anos começou a recusar os alimentos, e na adolescência só se alimentava de pão e ervas. Ingressou na ordem das Dominicanas e foi conselheira do Papa Gregório IX em Avignon. Ao perceber que suas tentativas de unificação do papado não deram resultado, se sentiu fracassada. Após este acontecimento deixou de alimentar-se e morreu. No século IX em Avicena, o príncipe Hamadham estava morrendo por não se alimentar, vitima de uma imensa melancolia. Esta é a primeira referencia de uma anoréxico em um contexto médico, ainda que proveniente de um quadro depressivo

Santa Caterina de Siena Santa Wilgefortis Santa Lidwina de Shiedam
Em 1694, Morton descreveu a "extenuação nervosa", considerando se esta a primeira descrição clinica do transtorno. Mas foi William Gull quem utilizou pela primeira vez a expressão "anorexia nervosa" em uma conferencia dada em Oxford (Gull 1874): "forma peculiar de doença que afeta principalmente mulheres jovens e caracteriza-se por emagrecimento extremo” cuja “falta de apetite é decorrente de um estado mental mórbido e não a qualquer disfunção gástrica". Gull descartou a possibilidade que uma enfermidade orgânica justificasse a anorexia.Na mesma época e de maneira quase simultânea, se produziu a descrição da doença por Laségue (1873), qualificando-a de inanição histérica e considerando-a, da mesma forma que Gull, uma doença psicogêna (Toro,1996). No final do século XIX, em 1893, Freud descreveu um caso de anorexia tratado com hipnose, um ano mais tarde descreveu a doença como uma psiconeurose de defesa, ou neurose da alimentação com melancolia . No começo do século XX, a anorexia começa a ser tratada sobre um ponto de vista endocrinológico, assim em 1914 Simonds um patologista alemão, descreveu um paciente caquética, a quem, ao fazer-lhe autopsia encontrou uma destruição pituitária e durante os 30 anos seguintes, reinou a confusão entre insuficiência pituitária (doença de Simonds) e anorexia nervosa. A partir dos anos 30, a anorexia passa a ser estudada principalmente sobre o ponto de vista psicológico, deixando no esquecimento as antigas discussões sobre a origem endócrino ou psicológica do transtorno.
Russel em 1970 e 1977 tenta mostrar a relação entre as teorias biológicas da origem da doença com as psicológicas e sociológicas, e chegou as seguintes conclusões:
O transtorno psíquico provoca a diminuição da ingestão de alimentos e a perda de peso
A perda de peso é a causa do transtorno endócrino
A desnutrição piora o transtorno psíquico
O transtorno psíquico também pode agravar de maneira direta a função hipotalamica e produzir amenorréia
É provável que exista uma relação entre um transtorno do controle do hipotálamo na ingestão e na recusa da alimentação, característico da anorexia
O transtorno hipotalamico poderia alterar as funções psíquicas, gerando atitudes anômalas frente ao alimento, imagem corporal e sexualidade.
Provavelmente a mais antiga representação de anorexia nervosa (1874).
A paciente aparece retratada antes e depois da cura.
Anorexia
é uma doença caracterizada por uma perda voluntária de peso,motivada por um
desejo patológico de emagrecer aliada a um medo intenso de engordar.
A
perda de peso é conseguida através dos mais diferentes comportamentos:
Redução
da alimentação, especialmente com relação aos alimentos que contem um
maior numero de calorias.
Exercício
físicos intensos
Utilização
de medicamentos anorexigênos (redutores do apetite)e/ou laxantes,
e/ou diuréticos.
Vômitos
provocados
Sinais
que podem indicar a presença
da Anorexia
Sinais Físicos
Inicia
restrições alimentares
Perda
importante de peso, não justificada
Frio
excessivo
Sono
excessivo
Lanugo
(o corpo fica coberto com uma penugem fina)
Amenorréia
(falta de menstruação) pelo menos 3 ciclos
Queda
de cabelo
Consumo elevado de alimentos ricos em vitamina A e caroteno, como cenoura, confere à pele de alguns portadores de Anorexia coloração amarelada.
Alterações Comportamentais :
Mudanças
bruscas de humor (irritabilidade, agressividade, impulsividade).Também pode
passar por momentos de muita tristeza, apresentando sentimentos de culpa e
baixa auto-estima
Desculpas
para não comer em casa
Podem utilizar laxantes, diuréticos, e/ou qualquer erva ou “medicamento” que favoreça ou “prometa” o emagrecimento.
Desejo claro de perder peso. Tanto estando dentro da faixa de peso normal para a idade/altura, quanto estando abaixo desta.Este desejo se mantém até mesmo quando estão extremamente magras.
Alimenta-se
sozinha
Preocupação exagerada com o conteúdo calórico dos alimentos e por dietas. Podem “vigiar” a preparação dos alimentos
A principio evitam determinados alimentos: doces, pães, batatas, arroz, frituras, etc.Posteriormente passam a eliminar da sua dieta um numero cada vez maior de alimentos, até chegar a se alimentar única e exclusivamente de verduras ou frutas ( e cada vez em menores quantidades). Podem consumir somente alimentos light. E inclusive a viver somente de líquidos
Aumento de interesse pela imagem e/ou peso.Se queixam com freqüência sobre o seu peso: “estou gorda”. E aparência física.
Aumento no controle do peso, se pesam constantemente, inclusive varias vezes ao dia.
Comparam-se
constantemente com modelos e/ou outras figuras de admiração
Isolamento
social e/ou familiar
Aumento da atividade física. Os exercícios exagerados são realizados com a finalidade de perder peso, podem desejar ir caminhando para todos os lugares,caminhando assim varias horas. Evitam os elevadores e usam as escadas, passam horas na academia, correm, etc.
Fracionam
a comida, deixando restos no prato.Também podem "brincam" com a
comida antes de leva-la ate a boca
Mentem
sobre ter ou não comido, podem “esconder” a comida e depois joga-la
fora.
Podem
apresentar uma obsessão com os estudos, dedicando-se várias e várias
horas
Insônia
"Hunger is the best cook": "A fome é boa cozinheira"
Provérbio Inglês
Obsessão
pela comida e ligação com a
cozinha, constantemente fala sobre dietas e sobre a quantidade de calorias
dos alimentos. Muitas vezes gosta de cozinhar para a família, pode
colecionar receitas e gosta de controlar a comida que existe m casa, fazendo
listas de compras, ou, comprando os alimentos.
Podem
começar a apresentar problemas de relacionamento com outros membros da família.
Especialmente a figura materna (ligada à alimentação).
Sofrem de sentimentos de culpa após terem comido
Podem vomitar após se alimentarem.
Freqüentemente
se vestem com roupas largas e sobrepostas, cuja função a principio é
dissimular os supostos defeitos físicos (quadris largos, abdômen,
etc.).Posteriormente sua função passa a ser a dissimulação da magreza
extrema. Tem dificuldade em se vestir e escolher roupas, sempre buscando
esconder o seu corpo cada vez mais magro, sob camadas de roupas, ex: calças
de moletom, embaixo das calças jeans
Alguns
se tornam ritualistas: sempre ocupando o mesmo lugar na mesa, os pratos também
devem estar arrumados de uma maneira simétrica, assim como os copos e
talheres.
Se recusam a comer em quantidades normais apesar dos riscos, recomendações, ordens e/ou ameaças familiares e inclusive médicas.
As
principais características da Anorexia Nervosa são:
Recusa do indivíduo a manter um peso corporal na faixa normal mínima
"Este
desejo, este desejo infantil, tinha crescido assim forte dentro
dele: encontrar a paz destruindo seu corpo." - Herman Hesse,
Siddhartha
Recusa
a manter o peso corporal em um nível igual ou acima do mínimo normal
adequado à idade e à altura (por ex., perda de peso levando à manutenção
do peso corporal abaixo de 85% do esperado; ou fracasso em ter o ganho de
peso esperado durante o período de crescimento, levando a um peso corporal
menor que 85% do esperado).O indivíduo mantém um peso corporal abaixo de
um nível normal mínimo para sua idade e altura . Quando a Anorexia Nervosa
se desenvolve em um indivíduo durante a infância ou início da adolescência,
pode haver fracasso em fazer os ganhos de peso esperados (isto é, enquanto
ganha altura), ao invés de uma perda de peso.
Este critério oferece uma orientação para determinar quando um indivíduo
alcança o limiar para um peso abaixo do esperado. Ele sugere que o indivíduo
pese menos que 85% do peso considerado normal para sua idade e altura
(geralmente computado pelo uso de uma dentre as diversas versões publicadas
das tabelas do Metropolitan Life Insurance ou de acordo com tabelas de
crescimento usadas em pediatria). Uma orientação alternativa e algo mais rígida
(usada nos Critérios de Diagnóstico para Pesquisas da CID-10) exige que o
indivíduo tenha um índice de massa corporal (IMC) (calculado como peso em
quilogramas/[altura em metros]2) igual ou inferior a 17,5 kg/m². Esses
recursos são oferecidos apenas como diretrizes sugeridas para o clínico,
pois não é razoável especificar um único padrão para um peso normal mínimo,
que se aplique a todos os indivíduos de determinada idade e altura. Ao
determinar um peso normal mínimo, o clínico deve considerar não apenas
essas diretrizes, como também a constituição corporal e a história
ponderal do indivíduo.
A perda de peso em geral é obtida, principalmente, através da redução do
consumo alimentar total. Embora os indivíduos possam começar excluindo de
sua dieta aquilo que percebem como sendo alimentos altamente calóricos, a
maioria termina com uma dieta muito restrita, por vezes limitada a apenas
alguns alimentos. Métodos adicionais de perda de peso incluem purgação
(isto é, auto-indução de vômito ou uso indevido de laxantes ou diuréticos)
e exercícios intensos ou excessivos.
Temor intenso de ganhar peso
Medo intenso de ganhar peso ou de se tornar gordo, mesmo estando com peso abaixo do normal.Os indivíduos com este transtorno têm muito medo de ganhar peso ou ficar gordos . Este medo intenso de engordar geralmente não é aliviado pela perda de peso. Na verdade, a preocupação com o ganho de peso freqüentemente aumenta à medida que o peso real diminui.
Perturbação significativa na percepção da forma ou tamanho do corpo
Perturbação
no modo de vivenciar o peso ou a forma do corpo, influência indevida do
peso ou da forma do corpo
sobre a auto-avaliação, ou negação do baixo peso corporal atual.Além
disso, as mulheres pós-menarca com este transtorno são amenorréicas (o
termo anorexia é
uma designação incorreta, uma vez que a perda do apetite é rara).A
Amenorréia
Ausência
de pelo menos três ciclos menstruais consecutivos. (Considera-se que uma
mulher tem amenorréia se seus períodos ocorrem apenas após a administração
de hormônio, por ex., estrógeno.).Em mulheres pós-menarca (após a
primeira menstruação), a amenorréia (devido a níveis anormalmente baixos
de secreção de estrógenos que, por sua vez, devem-se a uma redução da
secreção de hormônio folículo-estimulante [FSH] e hormônio luteinizante
[LH] pela pituitária) é um indicador de disfunção fisiológica na
Anorexia Nervosa . A amenorréia em geral é uma conseqüência da perda de
peso mas, em uma minoria dos indivíduos, pode na verdade precedê-la. Em
mulheres pré-púberes, a menarca pode ser retardada pela doença.
O indivíduo freqüentemente é levado à atenção profissional por membros
da família, após a ocorrência de uma acentuada perda de peso (ou fracasso
em fazer os ganhos de peso esperados).
Quando o indivíduo busca auxílio por conta própria, isto geralmente ocorre em razão do sofrimento subjetivo acerca das seqüelas somáticas e psicológicas da inanição. Raramente um indivíduo com Anorexia Nervosa se queixa da perda de peso em si. Essas pessoas freqüentemente não possuem insight para o problema ou apresentam uma considerável negação quanto a este, podendo não ser boas fontes de sua história. Portanto, com freqüência se torna necessário obter informações a partir dos pais ou outras fontes externas, para determinar o grau de perda de peso e outros aspectos da doença.
Os seguintes subtipos podem
ser usados para a especificação da presença ou ausência de compulsões periódicas
ou purgações regulares durante o episódio atual de Anorexia Nervosa.
Tipo Restritivo. Este subtipo descreve apresentações nas quais a perda de peso é conseguida principalmente através de dietas, jejuns ou exercícios excessivos. Durante o episódio atual, esses indivíduos não se envolveram com regularidades em compulsões periódicas ou purgações (isto é, auto-indução de vômito ou uso indevido de laxantes, diuréticos ou outros).
Tipo Compulsão Periódica/Purgativo. Este subtipo é usado quando o indivíduo se envolveu regularmente em compulsões periódicas ou purgações (ou ambas) durante o episódio atual. A maioria dos indivíduos com Anorexia Nervosa que comem compulsivamente também fazem purgações mediante vômitos auto-induzidos ou uso indevido de laxantes, diuréticos ou outros. Alguns indivíduos incluídos neste subtipo não comem de forma compulsiva, mas fazem purgações regularmente após o consumo de pequenas quantidades de alimentos. Aparentemente, a maior parte dos indivíduos com o Tipo Compulsão Periódica/Purgativo dedica-se a esses comportamentos pelo menos 1 vez por semana, mas não há informações suficientes que justifiquem a especificação de uma freqüência mínima.
Características descritivas e transtornos mentais associados. Quando seriamente
abaixo do peso, muitos indivíduos com Anorexia Nervosa manifestam sintomas
depressivos, tais como humor deprimido, retraimento social, irritabilidade,
insônia e interesse diminuído por sexo. Esses indivíduos
podem ter apresentações sintomáticas que satisfazem os critérios para
Transtorno Depressivo Maior. Uma vez que esses aspectos também são observados
em indivíduos sem Anorexia Nervosa que estão restringindo severamente sua
alimentação, muitos dos aspectos depressivos podem ser secundários às seqüelas
fisiológicas da semi-inanição. Os sintomas de perturbação do humor devem,
portanto, ser reavaliados após uma recuperação completa ou parcial do peso.
Características obsessivo-compulsivas, tanto relacionadas quanto não
Outras características ocasionalmente associadas com a Anorexia Nervosa incluem
preocupações acerca de comer em público, sentimento de inutilidade, uma forte
necessidade de controlar o próprio ambiente, pensamento inflexível,
espontaneidade social limitada e iniciativa e expressão emocional
demasiadamente refreadas.
Comparados com indivíduos com Anorexia Nervosa, Tipo Restritivo, aqueles com o
Tipo Compulsão Periódica / Purgativo estão mais propensos a ter outros
problemas de controle dos impulsos, a abusarem de álcool ou outras drogas, a
exibirem maior instabilidade do humor e a serem sexualmente ativos.
ACHADOS LABORATORIAIS ASSOCIADOS
Embora alguns indivíduos com Anorexia Nervosa não apresentem anormalidades
laboratoriais, a característica de semi-inanição deste transtorno pode afetar
sistemas orgânicos importantes e produzir uma variedade de distúrbios. A indução
de vômitos e o abuso de laxantes, diuréticos e enemas podem também causar
diversos distúrbios, produzindo achados laboratoriais anormais.
Hematologia: Leucopenia e leve anemia são comuns; trombocitopenia ocorre
raramente.
Química: A desidratação pode ser refletida por um elevado nível de uréia
sangüínea. Hipercolesterolemia é comum. Os testes de função hepática podem
estar elevados. Hipomagnesemia, hipozinquemia, hipofosfatemia e hiperamilasemia
são encontradas ocasionalmente. A indução de vômitos pode provocar alcalose
metabólica (elevado bicarbonato sérico), hipocloremia e hipocalemia, e o abuso
de laxantes pode causar acidose metabólica. Os níveis de iroxina sérica (T4)
estão diminuídos. Hiperadrenocorticismo e resposta anormal a uma variedade de
provocações neuroendócrinas são comuns.
Em mulheres, baixos níveis de estrógeno sérico estão presentes, enquanto os
homens têm baixos níveis de testosterona sérica. Existe uma regressão do
eixo hipotalâmico-pituitário-gonadal em ambos os sexos, no sentido de que o
padrão de secreção de hormônio luteinizante (LH) em 24 horas assemelha-se àquele
normalmente visto em indivíduos pré-púberes ou na puberdade.
Eletrocardiografia: São observadas bradicardia sinusal e, raramente, arritmias.
Eletroencefalografia: Anormalidades difusas, refletindo uma encefalopatia metabólica,
podem decorrer de distúrbios hidroeletrolíticos significativos.
Imagens cerebrais: Um aumento na razão ventricular-cerebral secundária à
privação alimentar é vista com freqüência.
Dispêndio de energia em repouso: Freqüentemente está reduzido.
Achados ao exame físico e condições médicas gerais associadas
Muitos dos sinais e
sintomas físicos da Anorexia Nervosa são atribuíveis à inanição. Além da
amenorréia, pode haver queixas de constipação, dor abdominal, intolerância
ao frio, letargia e excesso de energia. O achado que mais chama a atenção no
exame físico é a aparência emaciada. Também pode haver hipotensão
significativa, hipotermia e pele seca. Alguns indivíduos desenvolvem lanugo (pêlos
finos) no tronco. A maioria dos indivíduos com Anorexia Nervosa apresenta
bradicardia. Alguns desenvolvem edema periférico, especialmente durante a
restauração do peso ou na cessação do abuso de laxantes e diuréticos.
Raramente, petéquias, em geral nas extremidades, podem indicar uma diátese
hemorrágica. Alguns indivíduos evidenciam um amarelamento da pele, associado
com hipercarotenemia. A hipertrofia das glândulas salivares, particularmente
das glândulas parótidas, pode estar presente. Os indivíduos que induzem vômito
podem ter erosão do esmalte dentário e alguns têm cicatrizes ou calos no
dorso das mãos, causados pelo contato com os dentes quando utilizam as mãos
para induzir o vômito.
A inanição da Anorexia Nervosa e os comportamentos purgativos às vezes
associados a ela acarretam condições médicas gerais significativas. Estas
incluem o desenvolvimento de anemia normocítica normocrômica, prejuízo da função
renal (associado com desidratação crônica e hipocalemia), problemas
cardiovasculares (hipotensão severa, arritmias), problemas dentários e
osteoporose (conseqüência do baixo consumo e absorção de cálcio, secreção
reduzida de estrógeno e maior secreção de cortisol).
Características Específicas à Cultura, à Idade e ao Gênero
A Anorexia Nervosa parece
ter uma prevalência bem maior em sociedades industrializadas, nas quais existe
abundância de alimentos e onde, especialmente no tocante às mulheres, ser
atraente está ligado à magreza. O transtorno é provavelmente mais comum nos
Estados Unidos, Canadá, Austrália, Japão e África do Sul, mas poucos
trabalhos sistemáticos examinaram a prevalência em outras culturas. Os indivíduos
que emigraram de culturas nas quais o transtorno é raro para culturas nas quais
o transtorno é mais prevalente podem desenvolver Anorexia Nervosa, à medida
que assimilam os ideais de elegância ligados à magreza. Fatores culturais também
podem influenciar as manifestações do transtorno. Por exemplo, em algumas
culturas, a percepção distorcida do corpo pode não ser proeminente, podendo a
motivação expressada para a restrição alimentar ter um conteúdo diferente,
como desconforto epigástrico ou antipatia por certos alimentos.
A Anorexia Nervosa raramente inicia antes da puberdade, mas existem indícios de
que a gravidade das perturbações mentais associadas pode ser maior entre os
indivíduos pré-púberes que desenvolvem a doença. Entretanto, também há
dados que sugerem que quando a doença inicia durante os primeiros anos da
adolescência (entre 13 e 18 anos de idade), ela pode estar associada com um
melhor prognóstico. Mais de 90% dos casos de Anorexia Nervosa ocorrem em
mulheres.
Prevalência
Estudos sobre a prevalência
entre mulheres na adolescência tardia e início da idade adulta verificam taxas
de 0,5 a 1,0%, para apresentações que satisfazem todos os critérios para
Anorexia Nervosa. Indivíduos que não atingem o limiar para o transtorno (isto
é, com Transtorno Alimentar Sem Outra Especificação) são encontrados com
maior freqüência. Existem dados limitados envolvendo a prevalência deste
transtorno em homens. A incidência de Anorexia Nervosa parece ter aumentado nas
últimas décadas.
Curso
A idade média para o início
da Anorexia Nervosa é de 17 anos, com alguns dados sugerindo picos bimodais aos
14 e aos 18 anos. O início do transtorno raramente ocorre em mulheres com mais
de 40 anos. O aparecimento da doença freqüentemente está associado com um
acontecimento vital estressante, como sair de casa para cursar a universidade. O
curso e o resultado da Anorexia Nervosa são altamente variáveis. Alguns indivíduos
com Anorexia Nervosa se recuperam completamente após um episódio isolado,
alguns exibem um padrão flutuante de ganho de peso seguido de recaída, e
outros vivenciam um curso crônico e deteriorante ao longo de muitos anos. A
hospitalização pode ser necessária para a restauração do peso e para a
correção de desequilíbrios hidroeletrolíticos. Dos indivíduos baixados em
hospitais universitários, a mortalidade a longo prazo por Anorexia Nervosa é
de mais de 10%. A morte ocorre, com maior freqüência, por inanição, suicídio
ou desequilíbrio eletrolítico.
Padrão Familiar
Existe um risco aumentado
de Anorexia Nervosa entre os parentes biológicos em primeiro grau de indivíduos
com o transtorno. Um risco maior de Transtornos do Humor também foi constatado
entre os parentes biológicos em primeiro grau de indivíduos com Anorexia
Nervosa, particularmente parentes de indivíduos com o Tipo Compulsão Periódica/Purgativo.
Os estudos de Anorexia Nervosa em gêmeos descobriram taxas de concordância
para gêmeos monozigóticos(55%) significativamente maiores do que para gêmeos
dizigóticos. A Anorexia comparte marcadores biológicos com outras patologias
psiquiatricas como transtornos depressivos, de personalidade, neurose obsessiva,
déficit no controle dos impulsos, e abuso de álcool e outras substancias que
podem coexistir no paciente ou estar presente nos seus antecedentes familiares.
Outras possíveis causas de
perda significativa de peso devem ser consideradas no diagnóstico diferencial
de Anorexia Nervosa, especialmente quando as características apresentadas são
atípicas (tais como início da doença após os 40 anos). Em condições médicas
gerais (por ex., doença gastrintestinal, tumores cerebrais, condições
malignas ocultas e síndrome de imunodeficiência adquirida [AIDS]) pode ocorrer
séria perda de peso, mas os indivíduos com esses transtornos em geral não têm
uma imagem distorcida de seus corpos e um desejo de perder ainda mais peso. A síndrome
da artéria mesentérica superior (caracterizada por vômitos pós-prandiais
secundários à obstrução intermitente da saída gástrica) deve ser
diferenciada da Anorexia Nervosa, embora esta síndrome possa ocasionalmente se
desenvolver em indivíduos com Anorexia Nervosa, em razão de seu estado
emaciado. No Transtorno Depressivo Maior pode ocorrer uma severa perda de peso,
mas a maioria dos indivíduos com Transtorno Depressivo Maior não tem um desejo
excessivo de perder peso ou um medo excessivo de ganhar peso. Na Esquizofrenia,
os indivíduos podem apresentar um comportamento alimentar incomum e
ocasionalmente experimentar uma perda de peso significativa, mas raramente
demonstram o medo de ganhar peso e a perturbação da imagem corporal, necessários
para um diagnóstico de Anorexia Nervosa.
Algumas das características da Anorexia Nervosa fazem parte dos conjuntos de
critérios para Fobia Social, Transtorno Obsessivo-Compulsivo e Transtorno
Dismórfico Corporal Especificamente, os indivíduos podem sentir-se
humilhados ou embaraçados por serem vistos comendo em público, como na Fobia
Social; podem apresentar obsessões e compulsões relacionadas a alimentos, como
no Transtorno Obsessivo-Compulsivo, ou preocupar-se com um defeito imaginário
em sua aparência física, como no Transtorno Dismórfico Corporal. Se os
temores de um indivíduo com Anorexia Nervosa se restringem unicamente ao
comportamento alimentar, o diagnóstico de Fobia Social não deve ser feito, mas
os temores sociais que não têm relação com o comportamento alimentar (por
ex., medo excessivo de falar em público) podem justificar um diagnóstico
adicional de Fobia Social. Da mesma forma, um diagnóstico adicional de
Transtorno Obsessivo-Compulsivo deve ser considerado apenas se o indivíduo
apresenta obsessões e compulsões não relacionadas a alimentos (por ex., um
medo excessivo de contaminação) e um diagnóstico adicional de Transtorno Dismórfico
Corporal deve ser considerado apenas se a distorção não está relacionada à
forma e ao tamanho do corpo (por ex., preocupação de que seu nariz seja grande
demais).
Na Bulimia Nervosa, os indivíduos apresentam episódios recorrentes de comer
compulsivo, envolvem-se em comportamentos inadequados para evitarem ganhar peso
(por ex., vômito auto-induzido) e preocupam-se excessivamente com a forma e o
peso do corpo. Entretanto, à diferença dos indivíduos com Anorexia Nervosa,
Tipo Compulsão Periódica/Purgativo, os indivíduos com Bulimia Nervosa são
capazes de manter um peso corporal no nível normal mínimo ou acima deste.
Imagens :
Egon Schiele: "Standing Male Nude"
Salvador Dali: "Girafas em Fogo"
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